Um post para a troika

O Rui Peres Jorge, no seu blogue Perestroika (excelente nome, já agora), responde a uma anterior nota minha sobre a questão do desequilíbrio externo. Não estou com muito tempo, mas tenho de gastar algum a responder-lhe (basta seguir os links para reconstituir a história).

A falta de tempo também me obriga a seguir o sistema pouco elegante dos pontos:

1)      Pode parecer estranho, mas estou de acordo com quase tudo o que o Rui diz. A questão é que não se pode dizer que Portugal não tem um problema de competitividade, como já li em muitos sítios e me pareceu ver no artigo original do Rui. Ou então pode, mas nesse caso, por paradoxal que pareça, tem de se estar de acordo com o programa da troika: é preciso baixar o nível do PIB português até ao ponto que nos é permitido pela nossa actual capacidade de exportar (que é pouca…).

2)      Quando digo que o desequilíbrio externo só se resolve de uma de três maneiras (ou de uma combinação delas), exportar mais, receber transferências unilaterais ou receber investimento estrangeiro, não estou a dizer que seja fácil nem estou a dizer que em cada uma destas possibilidades esteja a mesma história. Isto dava um livro…

3)      Para além disso, o que quero dizer é que essas são as únicas formas de o resolver de forma sustentada e num prazo longo. Como o Rui diz, e muito bem, há uma maneira de o fazer no curto-prazo: à bruta, como a troika e o Governo estão a fazer, deprimindo a despesa interna (investimento e consumo). A questão é que, ou mantemos esse nível deprimido ou regressa o endividamento externo.

4)      O Rui também tem razão quando diz que o euro não piorou a situação e que o grande problema dos últimos anos está na balança de rendimentos. Mas aqui tem de se dizer mais qualquer coisa. Convido a olhar para o gráfico que publiquei no outro post (que reproduzo mais abaixo): o problema do nosso endividamento externo vem desde meados dos anos 90. Repare-se como tínhamos uma balança corrente equilibrada até aí e, desde então, ela tem convergido para o nível da balança de bens e serviços. O que se passou? Passou que deixámos de receber as remessas dos emigrantes que nos permitiam pagar o défice comercial e também passámos a ter um valor praticamente residual na balança líquida das transferências com a UE. Isto aconteceu porque a emigração diminuiu, e também porque tivemos uma enorme valorização cambial e real desde que entrámos para a CEE (vale a pena ver este artigo velhinho do FMI), e porque a pertença à CEE e ao euro deu o sinal aos credores para nos emprestarem porque um dia seríamos capazes de voltar a pagar. Se não estivéssemos no euro isso não teria acontecido e já há muito que a nossa moeda se teria desvalorizado. Não há muito a fazer: o euro é um problema. E um dos seus maiores problemas é a dificuldade em sair dele…

5)   Também concordo com o Rui sobre o facto de a depressão salarial incluída nos programas da troika não ser solução. Em termos técnicos claro que é uma solução: basta empurrar para baixo e chegar-se-á a um ponto em que recuperamos competitividade. O que me parece é que, dada a valorização real anterior, o nível de depressão salarial necessária seria social e politicamente insustentável.

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