Antes que pegue

Porque já vi o argumento ser defendido mais do que uma vez e porque é especialmente perigoso, vale a pena corrigi-lo. Hoje é apresentado neste artigo de Rui Peres Jorge, de resto bem intencionado, no Jornal de Negócios: “Joong Kang e Jay Shambaugh, defendem que o défice externo português após a adesão ao euro não resulta da falta de competitividade das exportações. Os economistas sublinham que o saldo da balança comercial portuguesa esteve relativamente equilibrado desde 2000, e que o traço distintivo do desequilíbrio português foi uma queda acentuada do saldo das transferências com o exterior e um aumento dos rendimentos pagos ao exterior”. Não é isso que Kang e Shambaugh dizem, embora o apresentem de maneira suficientemente ambígua para enganar incautos. Eles não dizem que “o saldo da balança comercial esteve relativamente equilibrado”. O que dizem é que melhorou. Isto é, em vez de ser de 12% do PIB ao ano passou para 10%. Melhorou, mas continua profundamente desequilibrado (10% em cada ano…). De resto, a escolha de anos enviesa as contas, como se pode ver no slide abaixo, com as componentes principais da balança de pagamentos entre 1960 e 2009 em percentagem do PIB: o desequilíbrio comercial foi particularmente mau em 1999 e 2000 (para quem acha o gráfico confuso, a linha a prestar atenção é a cor-de-rosa). Se as contas fossem feitas de 2001 para a frente nem sequer haveria melhoria da situação comercial externa. Não há muito a fazer: o problema da economia portuguesa é um problema de desequilíbrio externo. Ou esse desequilíbrio é pago com exportações, ou então é pago de outra forma (transferências unilaterais, como as remessas, ou investimento). Nem sequer é muito relevante saber se as “exportações portuguesas são competitivas”. A questão é tautológica: são competitivas as que são; as que não são, não são. O problema é que as exportações são uma parte muito pequena do PIB e a maior parte da economia não é vocacionada para o mercado externo e, portanto, não se consegue pagar a si própria. É a economia no seu todo que não é competitiva, não são as exportações, que por definição são competitivas. Convém notar isto, antes que o erro pegue.Imagem

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