Retórica do taxista

A retórica do taxista dá sempre mau resultado. O exemplo mais recente da retórica do taxista é: “os bandidos da função pública trabalham 35 horas por semana, os heróis do sector privado trabalham 40”. Vamos lá a ver uma coisa: não há nenhuma diferença ontológica entre público e privado nas horas de trabalho semanais. Os horários de trabalho sectoriais resultam de negociações entre sindicatos e empregadores, que ficam registadas nos respectivos acordos colectivos de trabalho, e não de qualquer presumível privilégio público sobre o privado. Há muitos sectores privados onde se trabalham apenas 35 horas por semana. Não fiz nenhuma investigação e nunca me preocupei muito com a coisa, mas sei por amigos e familiares que é esse o caso da banca e dos seguros, por exemplo. E muitos outros haverá. De resto, na função pública só se trabalham 35 horas desde 1998 – resultado, evidentemente, de negociações entre sindicatos e Estado. Atenção: a medida de aumentar o tempo de trabalho nem sequer me parece má, dada a situação de emergência. Mas não estabelece nenhuma igualdade entre público e privado. Estabelece-a entre público e sectores do privado onde se trabalham 40 horas semanais, e basta. Isto é a retórica do taxista a servir de justificação para uma “reforma do Estado” que não é nada disso mas apenas um amontoado incoerente de cortes de despesa. Cortem a despesa, mas não venham com a conversa de que estão a reformar o Estado. Se o ponto de partida é a retórica do taxista, o resultado não pode ser bom.

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