Ler e aprender

Kevin O’Rourke, ao Jornal de Negócios (vale a pena ler o resto): “Não há qualquer desculpa para, no início do século XXI, defender que as economias avançadas podem prosseguir uma estratégia de recuperação baseada na desvalorização interna. Não há desculpa intelectual: nós sabemos que não funciona. E ainda assim as pessoas que interessam no centro não querem ouvir. (…) Muitas regiões têm problemas de competitividade porque houve um fluxo sistémico de capital de zonas da Zona Euro com abundância de capital para zonas onde o capital faltava. Isso conduziu a aumentos de salários, de preços, e bolhas de activos. E agora há um problema de ajustamento. Muito infelizmente não temos moedas para desvalorizar –  seria muito mais fácil se não tivéssemos integrado a Zona Euro. E acho que há um número crescente de pessoas que se apercebe que o euro foi um erro catastrófico. Mas agora que estamos cá, isso também não significa que o ajustamento tenha de ser feito via quedas nominais de salários na periferia. Isso é uma coisa que nunca vai acontecer de forma sistemática. Simplesmente não é possível”.

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2 Comments on “Ler e aprender”

  1. vasco Silveira says:

    Mas não foi uma desvalorização interna que a alemanha fez nos primeiros anos de 2000, enquanto no resto da europa os custos cresciam alegremente? E não teve resultados assinaláveis? Ou terão havido outros factores determinantes no mesmo sucesso?

    • Luciano says:

      Julgo que não é comparável, por diversas razões:
      1) A desvalorização interna alemã foi de mais ou menos 10% ao longo de uma década; pede-se aos países “periféricos” que façam desvalorizações internas de 20% a 50% em dois ou três anos. Não me parece razoável.
      2) A Alemanha é um dos países mais produtivos da Europa; uma melhoria marginal de 10% talvez lhe permita manter-se na liga de topo da competitividade; Portugal tem metade da produtividade da Alemanha; para adquirir competitividade de forma significativa por esta via, os números teriam de ser incomensuravelmente maiores. 10% não chega de certeza. Ainda por cima o sector exportador alemão é muito maior do que o nosso.
      3) A desvalorização interna alemã foi feita em ambiente de negociação colectiva e de crescimento.

      Ou seja, a desvalorização interna alemã foi pequena, aplicada num país onde uma pequena mudança poderá ter tido um efeito grande na competitivdade, e sendo pequena foi feita num ambiente propício.

      Mesmo depois disto tudo, não sei se o êxito alemão na UEM se deve à desvalorização interna: ainda não vi nenhuma análise rigorosa sobre a sua efectiva contribuição para o crescimento alemão.


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