Números para a troika

Começou o esperável e deprimente número dos números das manifestações de ontem. Que as manifestações foram grandes não parece haver dúvidas. Que os números sejam os que os organizadores propõem parece-me da ordem do delírio. Acho que as contas simples apresentadas pelo jornal Público chegam para pôr termo à conversa: o Terreiro do Paço à cunha leva 180.000 pessoas; não estava nem por sombras cheio; a Avenida dos Aliados leva 75.000; estava bem composta, talvez cheia mesmo. Nada disto permite chegar ao milhão em Lisboa ou aos 400.000 no Porto.

De resto, os promotores da manifestação deveriam era preocupar-se com outra coisa: nomeadamente, em explicar o que pretendem ao mandar a “troika lixar-se”. Pretendem recusar os empréstimos? Talvez ainda não tenham percebido que são os melhores que agora se conseguem arranjar, com uma taxa média de mais ou menos 3.5%. Pedir emprestado nos mercados internacionais seria apenas a taxas incomensuravelmente maiores. Talvez pretendessem recusar estes empréstimos também. Nesse caso, teriam de arranjar outra maneira de pagar a despesa pública. E só haveria uma: imprimir moeda, o que implicaria mandar lixar o euro, já que não se vê o BCE com um programa monetário específico para Portugal. A partir daqui, teriam de adoptar um programa de austeridade ou então deixar chegar a hiperinflação. É isto que pretendem? Talvez, mas então continuaríamos lixadíssimos. Repare-se: eu vejo várias vantagens num hipotético abandono do euro, tanto económicas como políticas. Mas quem julga que assumi-lo, mandado a troika lixar-se, seria um regresso à felicidade, desengane-se. Seria ainda muito sangue, suor e lágrimas. E não me parece que as pessoas que ontem organizaram a manifestação fossem as indicadas para nos fazer passar por esse calvário, mesmo se eventualmente salvífico no final.

Mas talvez o que se pretendia com a manifestação fosse só catarse. Ah, então está bem.

Advertisements

2 Comments on “Números para a troika”

  1. […] “Números para a troika” de Luciano Amaral (Crise Crónica) […]

  2. Gonçalo says:

    Acho que está a ver tudo ao contrário amigo. No queremos o Escudo, nem queremos sair do Euro, queremos é que os banqueiros, políticos e quejantes paguem a crise, pois foram eles que a criaram. O Povo quer melhores salários, melhor educação e melhor sistema de saúde, o que o Povo não quer é ver uns a gozarem com a cara dos outros e verem os seus bens e a sua dignidade tirados pela corja citada em si. Amigo Luciano, a bem dizer, teve uma bela oportunidade para estar calado.


Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s