Refundação smart 2

O problema da “refundação do Estado” é quando se começa a pensar nela. Por isso é que não pode ser feita em dois meses, a pedido de credores. E é por isso que não pode ser feita à base de coisas como: “é público? Corta!” Os credores querem cortar despesa. Quem quer refundar o Estado deveria querer o mesmo mas de maneira “smart” (como se diz no “Relatório do FMI”).

Ontem, João Carlos Espada, num óptimo artigo no jornal Público, mostrava como funciona a ADSE. A ADSE é, no essencial, um sistema de seguros que permite ao segurado escolher de entre os diversos prestadores de serviços que com ela estejam convencionados. Nesse sentido, é um sistema de protecção mais interessante do que o sistema generalizado garantido pelo SNS. Como dizia Espada, mais valia que todo o sistema público de assistência fosse uma enorme ADSE do que a coisa meio soviética (inglesa, na verdade) que temos hoje. Era um grande negócio para privados, como já é hoje? Certamente. Mas, devidamente organizado, o mercado poderia até trazer concorrência que aumentasse a qualidade e baixasse os preços. O que hoje existe também é um grande negócio para privados: os médicos usam o SNS como plataforma de atendimento para depois dirigir os doentes para os seus consultórios privados; as filas de espera garantem um belíssimo negócio aos hospitais privados e às companhias de seguros. Na verdade, nós nunca tivemos um serviço de saúde público e gratuito: é caro (pelos impostos e pelas despesas privadas em consultas de especialidade e em seguros) e é semi-privado.

Também como dizia Espada, a “refundação” feita à bruta arrisca-se a ser pior do que aquilo que existe. Já ouço o argumento do costume: se não é assim à bruta, com a troika às costas, nunca é. Trata-se de uma confissão de cobardia e incapacidade política. Se não são capazes de defender reformas decentes e apenas aplicam o que a troika manda, cujas consequências são desastrosas, então safem-se sozinhos.

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One Comment on “Refundação smart 2”

  1. João Pedro Torga says:

    O problema é, que apenas aplicam o que a troika manda porque é só isso que sabem fazer. São paus mandados. Se houvesse visão já o país estava a milhas. E a falta de visão já afeta a política nacional há uns bons 38 anos, pelo menos….


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