Uma questão de fé

Diz que a Irlanda vai “regressar aos mercados”. Um país com um défice orçamental de 8% do PIB (o nosso é 6% ou 5%, ou lá o que é), uma dívida igual à portuguesa, um sector bancário arruinado (e que o Estado se arrisca a ter de assumir) e uma economia a crescer, essencialmente, 0%. Porque não Portugal? Porque muita gente tem fé na Irlanda e não tem em Portugal. Não sabiam? É esta a maravilhosa ciência dos mercados.

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5 Comments on “Uma questão de fé”

  1. gtaveira says:

    Caro Luciano, aprecio muito as suas crónicas. Mas entender os mercados não é uma ciência.
    Poderiamos elencar inumeros indicadores de um País e do outro: Nível de abertura da economia (Imports/Exports); produtividade; qualificação da força de trabalho; atractividade para o investimento – ver rankings internacionais como: World Bank (“ease of doing business” em 2011: IR em 10º; PT em 30º), World Economic Forum (IR em 27º; PT em 49º), Forbes, etc.
    Mas no fundo o que conta é qual o País que oferece maior segurança aos investidores. E isso só eles podem responder.
    Faço-lhe uma pergunta: você emprestaria o seu dinheiro ao Estado português? E ao Irlandês? E a qual pediria mais juros?
    Eu sei como responderia com o meu dinheiro. Ciência nos mercados? Não, os mercados são o resultado das decisões dos investidores (e por vezes dos governos e reguladores, que tendem a fzaer mais mal que bem quando intervêm).

    • Luciano says:

      Caro gbtaveira, o que eu quero dizer é que acho que não emprestava a nenhum. Conheço melhor os “mercados” do que julgará. Falo quase todos os dias com protagonistas dos ditos e vejo muito “group thinking” entre eles. Tem toda a razão quando diz que os “mercados” são decisões dos investidores. E acho que, neste momento, há uma grande vontade (“group thinking”), que duvido seja fundada, de ver o melhor exemplo dos países sob intervenção sair do buraco. Posso estar muito enganado, mas parece-me que ainda não é a hora.

      • gbtaveira says:

        Caro Luciano, por não duvidar dos sues conhecimentos (li o seu livro sobre a economia portuguesa publicado pela Fundação FMS, que muito apreciei) é que me espantou o seu post. O que você diz é que não entende porque os mercados já “têm fé” na Irlanda e ainda não em Portugal,baseando-se apenas nos indicadores défice e crescimento. Como se só esses contassem. Eu sei que você sabe que não é assim, por isso me surpreendeu o seu post.
        Já agora porque não falou do Japão, recordista de defices públicos e baixo crescimento e, no entanto com juros baixissimos. Você e eu sabemos que muitos factores explicam isto.
        E como o Luciano é lido por muita gente que não entende disto, acho que podia (devia) ser mais rigoroso. Assim, arrisca-se a contribuir para alimentar as teorias conspirativas de que os mercados estão contra nós e são os culpados dos nossos males.
        Espero continuar a lê-lo com apreço.

      • Luciano says:

        Já agora, para não ficar a impressão: não acredito em conspirações dos mercados contra Portugal. Mas há uma certa conspiração positiva (não é bem uma conspiração, é mais uma ideian generalizada) a favor da Irlanda. Não tenho a certeza de que seja justificada.

  2. Anónimo says:

    Entre PT e IR prefiro meter o meu dinheiro em obrigações da IR.


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