A crise é um lugar estranho

Eis um homem de poucas contradições. Gianni Vattimo: cristão, nietzschiano, gay, recém-converso ao marxismo e ao comunismo. O pensamento débil, de tanto saltitar, acaba por ser cansativo (o comunismo não matou, produzir é mau, produzir é bom, Chávez é bom, é democrata, dá Saúde e Educação, o capitalismo ocidental e a democracia ocidental são maus, mesmo que já tenham Saúde e Educação, etc.):

¿De verdad es comunista?
¿Qué  otra cosa se puede ser, tal como van las cosas?
El comunismo dejó  70 millones de muertos…
No fue el comunismo.
¿Qué,  entonces?
El industrialismo. Lenin propuso electrificación más  sóviets, es decir, control popular…, ¡pero el control popular se  esfumó!
(…)
¿Qué ideal  propone?
Soy cristiano, por eso soy comunista. Las primeras  comunidades cristianas fueron muy comunistas…, sólo que ellas esperaban el  inmediato fin del mundo.
Hay días en que por aquí  también…
Así que propongo el comunismo hermenéutico: un comunismo  no dogmático, un comunismo débil. Sólo esto puede  salvarnos.
¿Comunismo débil? Descríbamelo.
Sin  esencias ni absolutos que realizar a toda costa. Se trata sólo de un ideal de  sociedad equitativa, una sociedad que debilite progresivamente la violencia como  dialéctica.
Voy entendiéndole: otro sueño.
Un  comunismo como espectro, más definible por lo que no quiero que por otra  cosa.
¿Qué no quiere?
No quiero clases sociales,  desigualdad económica (¡basta de heredar!), una Europa dominada por banqueros,  una Iglesia que impide casarse a los curas, despilfarro en armas mientras se  retira la asistencia sanitaria…
Y, todo esto, sin  absolutismos.
¡Eso es! Hoy nos domina un  absoluto.
¿Cuál?
¡Austeridad! Todo para saldar la  deuda pública. Es un absoluto.
¿Algún país se acerca a su  sueño?
La Venezuela de Chaves. El Brasil de Lula. La Bolivia de  Morales. La Argentina de Kirchner. El Ecuador de Correa…
(…)
Contra la crisis, ¿producción?
Sin el  viejo industrialismo: produzcamos sólo lo necesario. ¡Menos coches, menos  bienes, más y mejor agricultura local!
(…)
¿Qué hace usted por su ideal?
Estoy  becando jóvenes estudiantes de Medicina. Me da alegría  hacerlo.
¿Qué más?
Y rezo cada noche las completas.


República Bolivariana de França

A crise está, de facto, a trazer-nos de volta a lugares muito estranhos. Suponho que seja uma questão de hábito (como é que é? Primeiro estranha-se, depois entranha-se?). Em França, o ministro da Renovação Industrial (só o nome…) ameaçou “nacionalizar temporariamente” (?!) as fábricas de aço Arcelor no planalto da Lorena. Porquê? Porque o seu proprietário (o indiano Lakshmi Mittal) tem a intenção de encerrar duas fornalhas das instalações. O ministro terá dito ainda que já não queria Mittal em França. Talvez não seja difícil de entender: perante a extraordinária queda nas sondagens, perante a negação, na prática, do programa “alternativo” de luta contra a crise, se calhar só resta mesmo a Hollande o método bolivariano: devolver à Pátria socialista o horrendo capital estrangeiro.


Diana Jonet

Diana Carney, a mulher do novo Governador do Banco de Inglaterra, é uma campeã da vida frugal. Diz ela que “reducing consumption, or returning it to levels that are sustainable, is critical overall”. E acredita que “it has been repeatedly shown that having more stuff does not make us happy, so we should be able to make that step”. Além disso, lamenta as “relentless exhortations to buy and the fact that much of our sense of self is tied up in our possessions”. Não estamos perante uma senhora católica de direita, nem uma defensora do governo Passos Coelho, mas antes perante a vice-presidente do think-tank de esquerda Canada 2020, que expressou simpatia pelo movimento Occupy e usa sapatos vegan reciclados. Bifes, consumo, concertos rock, sapatos velhos… Onde ouvi já eu isto? De qualquer forma, nada que impeça a senhora de viver num dos bairros mais caros de Ottawa, numa casa cujo valor estimado andará próximo de um milhão de euros. Enfim, há um caminho Jonet para resolver a crise. E há um caminho Carney. E que parecidos eles são. Viver acima das possibilidades não é para todos.


Outra dívida é possível

O acordo com a Grécia é mais complicado do que parece: o programa de recompra de dívida, as reduções de juros e os prolongamentos de prazo apenas se verificarão (e apenas progressivamente) caso a Grécia cumpra uma série de medidas adicionais. Mesmo assim, todos aqueles que acham que Portugal obteve melhores condições na quinta avaliação da troika por ser exemplar na aplicação do programa de ajustamento não devem estar a perceber bem o que se passa: então aquele povo korriscosso, aqueles egrégios e proverbiais aldrabões conseguem sempre renegociar a dívida?! Por outro lado, o caso dos proverbiais aldrabões também mostra os limites da renegociação (e mesmo do incumprimento) como solução para o que se passa.


As possibilidades da Europa

Bruxelas vive acima das suas possibilidades, a França vive acima das suas possibilidades, e querem continuar a viver, ainda que o mesmo não seja permitido ao resto da Europa. Caso os salários dos funcionários europeus aumentem e os fundos de coesão sejam cortados será a revelação do monstro político em que a UE se tornou.

Georges Ugeux explica aqui bem:

Une hausse du budget européen serait  intolérable
Au moment où la Commission européenne pousse l’Espagne dans un chômage insupportable, la Grèce dans une économie de survie, et les pays de l’Union dans une vraie et difficile discipline budgétaire, elle ne se rend même pas compte de l’indécence qu’il y a à demander même un euro de hausse du budget européen. Tous ont leur biais égoïste, et tentent de le déverser sur l’Europe.
•    La proposition de hausse de la Commission est indécente : José Manuel Barroso défend une hausse du budget et des salaires des fonctionnaires (1 %) de la Commission alors que cette dernière impose des réductions aux Portugais, Italiens, Espagnols, Irlandais et Espagnols… avant de s’en prendre à la France. Au nom de quelle justice diminuerait-on les salaires et les pensions des fonctionnaires nationaux pour alimenter ceux des fonctionnaires européens ? Le salaire minimum à la Commission est de 2 300 euros par mois, taxés à 8 %.  Le régime social de la Commission prévoit un alignement à une moyenne des augmentations des fonctionnaires des pays membres. C’est pour cette raison que la Commission poursuit les Etats Membres et le Conseil européen en justice pour avoir refusé la hausse de 1,7 % refusée pour 2011. David Cameron voudrait geler les salaires en termes réels pour les quelque 5 000 fonctionnaires qui gagnent plus de 100 000 euros.
•    La France défend à tort l’intangibilité de la Politique Agricole Commune : la politique agricole commune est un gouffre qui absorbe 40 % du budget communautaire pour 1,5 % du PIB. Si la France veut une agriculture subsidiée, qu’elle le fasse avec ses deniers et explique à sa population pourquoi et avec quels moyens elle le fait. La PAC est depuis longtemps un moyen facile pour la France d’éviter le débat qui exploserait si son budget se substituait au budget de la Commission.


What a Mas

Depois das eleições catalãs de ontem, a Convergència i Unió continua o grande partido autonomista-independentista, mas menos (com menos 12 deputados para o parlament). A chamada “deriva nacionalista” da CiU legitimou os verdadeiros independentistas, a Esquerra Republicana de Catalunya, cujo resultado foi histórico, passando a segundo partido mais votado e mais do que duplicando o número de deputados. O estreito caminho médio entre a autonomia e a independência que a CiU sempre percorreu tornou-se ainda mais estreito. Artur Mas abriu a porta à reivindicação verdadeiramente nacionalista e ela entrou-lhe bem dentro pela porta. Para governar, Mas tem agora de escolher: ou a ERC ou o derrotado mas espanholista PSOE local (o Partit dels Socialists de Catalunya). A ERC grita-lhe que continue a via da independência e que pare a austeridade. Não é só lá que as duas coisas andam ligadas. Escolher o PSC é recusar o referendo à independência, mas destruir a CiU. Escolher a ERC é seguir a independência. Como dizia o outro, the best is yet to come.


Go North

Vou hoje ao Norte, incluindo o Porto, onde nasci. Hoje a falar sobre agricultura durante o Estado Novo, nos Encontros de Outono do Museu Bernardino Machado, em Famalicão. Amanhã no Porto, na FNAC Sta. Catarina, apresentando o livro de Ricardo Arroja, As Contas Politicamente Incorrectas da Economia Portuguesa. Acho que ambos os eventos são públicos (pelo menos o do Porto é) e o livro do Ricardo é óptimo.


Francisión

Em Espanha, onde não houve PREC e a ditadura “ofereceu” a democracia, sobrevivem estátuas de Franco e ruas com o seu nome. E há mesmo uma fundação, que convocou uma homenagem à sua memória, sob o lema 120 años después, Francisco Franco, ¡presente! A homenagem terá lugar num edifício público. Não se imagina tal coisa por cá. É muito interessante um artigo saído no site da fundação: “Entiendo que la memoria histórica auténtica (ante la dramática situación que vivimos y que como, además de la crisis económica, está descristianizando a nuestro pueblo, cambiando su mentalidad y sus conciencia y poniendo en juego la unidad de España) nos permite comparar la España que Franco configuró como una monarquía sin corona, con la España de la Transición, que es una corona sin contenido monárquico, como remate de un Estado antinacional”. Até onde nos levará esta crise?


Estat propi, estat ric

Muita gente continua a achar que a Catalunha independente seria um país inviável. De acordo com o jornal La Vanguardia, um editor do Financial Times terá feito umas continhas simples (com um gráfico bastante catita) e mostrou como a Catalunha fora de Espanha seria mais rica não só do que a Espanha sobrevivente à separação (e Portugal e Grécia, com certeza) mas até do que a Itália. Madonna! O grande problema seria o endividamento. Mas aí é que está: uma Catalunha fora do euro ou então (melhor ainda) dentro do euro mas com uma taxa de câmbio bem alinhada rapidamente resolveria o problema e arriscava-se mesmo a colocar-se entre os mais prósperos dos mais prósperos. Claro que antes de tudo isso há a política: querem ou não os catalães ser independentes? Deixa ou não a Espanha que a Catalunha seja independente? Brevemente, num país (dois?) perto de si.


Bomba prometida

Os desgraçados de Gaza e da Cisjordânia continuam a ser a massa de manobra anti-israelita das ditaduras (ou países disfuncionais) circundantes: Egipto, Jordânia, Síria, Líbano. Foram convidados por eles a não aceitar a fundação de Israel em 1947-48. A acção conjunta dos exércitos egípcio, jordano, sírio, libanês e iraquiano seria então mais do que suficiente para garantir uma Palestina exclusivamente árabe. Não foi. Falhada a operação, deixaram amontoar-se as populações árabes nas suas fronteiras (incluindo os campos de refugiados), usando-as para o que eles gostariam de fazer mas não conseguem: atacar e destruir Israel. Israel não pode responder de forma muito diferente, perante os ataques quotidianos (quotidianos quer dizer todos os dias e é certo) com rockets (o número de bombistas suicidas terá baixado muito, graças ao muro e outros controlos melhorados). A esquerda ocidental continua a desempenhar o seu papel de idiota útil neste filme de horror. O que não seria nada demais, não fosse isto um convite para que os seus amigos se imolem em nome de um horror ainda maior.