Civitas

Aproveitei o último 5 de Outubro enquanto feriado para ir com as crianças a Mérida, visitar as ruínas romanas. Fora Roma propriamente dita, é dos mais espectaculares conjuntos edificados que conheço (e julgo que mesmo dos que não conheço). A grandiosidade explica-se porque há mais ou menos 2.000 anos Mérida era a cidade Emerita Augusta, capital da província da Lusitania. A contemplação daquelas construções levanta sempre a típica reflexão melancólica: como foi possível? Como foi possível o desaparecimento tão completo de uma civilização tão sofisticada? Julgo que terá sido depois de uma jornada de visita aos fóruns de Roma, colocando-se a mesma pergunta, que Gibbon se lançou à composição do The History of the Decline and Fall of the Roman Empire.

O número de teorias “explicativas” não tem fim. Mas há algo de interessante naquilo que sobreviveu das cidades romanas: a maior parte dos edíficios mais espectaculares e que melhor resistiram são dedicados ao lazer (o circo, o coliseu, o teatro…). Era lá que se organizavam espectáculos financiados pelos patronos para os seus clientes (representações teatrais, combates de gladiadores, lutas com feras, corridas de quadrigas…). Não é difícil reconhecer aqui os “males” de que tanto se fala hoje sobre nós: a corrupção, o clientelismo eleitoral e económico, a especulação imobiliária, o populismo, o pão e o circo…

Tudo coisas bem visíveis quando se viaja de carro entre Lisboa e Mérida, aliás. Primeiro a auto-estrada fantasma, ou melhor, cheia a caminho do sul e completamente deserta a partir do instante em que se desvia a oriente. Depois, as cidades-fantasma em Espanha: bairros e bairros por estrear, de estores corridos, sem um carro, uma pessoa. Depois, os outlets: na outrora mísera Estremadura erguem-se agora hangares de Media Markts, Hipercores, C&As, El Cortes Ingleses… Depois, a entrada em Mérida: uma belíssima ponte de Santiago Calatrava (a ponte Lusitania), supostamente destinada a não sobrecarregar com trânsito a ainda mais bela ponte romana, mas que é, na realidade, o quarto atravessamento sobre o Guadiana na cidade. Enfim, o edifício faraónico e semi-abandonado da sede da Junta da Estremadura, assente de forma grotesca sobre a antiga Mouraria.

Uma pessoa pergunta-se também melancolicamente que ruínas sobreviverão disto.

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