Memórias

No jornal Público, Manuel Loff volta hoje de forma indirecta à polémica sobre a História de Portugal de Rui Ramos. O texto é mais em género teórico do que os anteriores. Percebe-se enfim qual o problema de Loff: se perdermos a memória da ditadura deixamos de poder justificar a democracia, que se define contra a ditadura. O problema é que a interpretação da memória das ditaduras e da democracia oferecida por Loff é ela própria um problema.

Loff diz que “a II Guerra Mundial, com a derrota e a condenação do nazi-fascismo e das ditaduras fascizadas, criou um consenso democrático antifascista que a Guerra Fria não conseguiria dissolver até ao final do século”. O sublinhado é meu e explico porquê: o consenso era, de facto, antifascista, mas não era democrático, a menos que se definam a URSS, a China comunista e os restantes regimes comunistas como democráticos. É um desafio. Que normalmente era resolvido no passado com recurso à bela expressão “as mais amplas liberdades”. Curiosamente, eram “liberdades” que não incluiam as comezinhas liberdades de associação, expressão, greve, livre circulação individual, etc., etc.

Ernst Nolte foi dos primeiros historiadores a perceber a armadilha em que os verdadeiros democratas ficaram colocados com o consenso anti-fascista presumivelmente democrático: atacar o comunismo era atacar a democracia. Por isso, na Historikerstreit, explicou muito bem que o fascismo foi uma reacção ao comunismo e que o grande problema dos liberais e democratas do pós-guerra foi libertarem-se dessa coroa de espinhos. Foi a inexplicável confusão do comunismo com a democracia que permitiu aos comunistas durante décadas chamar fascista a quem quer que não fosse comunista, incluindo socialistas e social-democratas (e que, no delírio próprio do tempo, e dependendo da escola de comunismo, chegou a incluir outros comunistas: eram os “social-fascistas” ou os “capitalsitas de Estado”).

A memória de Loff é, portanto, muitíssimo selectiva. Esquece, por exemplo, que o salazarismo foi contemporâneo da URSS e do restante comunismo internacional. E esquece-se de apresentar a URSS e os outros países comunistas como aquilo que eram: ditaduras. E esquece ainda que, durante toda a sua existência institucionalizada, o comunismo procurou destruir a democracia. Se a memória de Loff é para salvar a democracia, então dispenso salvadores como ele e, já agora, prefiro outra memória.


2 Comments on “Memórias”

  1. CN says:

    Na minha (e outros) interpretação, quem ganhou a WWII foi Estaline, que tinha praticado os seus genocídios noa anos 30 em tempo de paz, e tinha invadido a Polónia (por sinal, uma ditadura militar fascista) 15 dias depois de Hitler.

    E o fascismo não deve ser conjugado com o nazismo, este deve sim ser conjugado com o estalinismo. Assim sendo, a leitura da história faz mais sentido. O fascismo foi uma reação dos países católicos, sempre dados a alguma contenção apesar de tudo, ao perigo comunista e ao vazio civilizacional deixado com o desaparecimento das monarquias no desastre da Grande Guerra (em Itália, o Rei e o Papa faziam o que podiam, servindo de travão) – o meio que operou a revolução e deixou espaço às ideologias. O nazismo e o estalinismo, os extremos gémeos totalitários nascidos desse vazio.

    Com isto presente, percebe-se melhor como tudo foi desastrosamente conduzido até a vitória total da URSS e o comunismo, enquanto Churchill via o seu Império Britânico desabar por morte súbita. Menos mal em Portugal apesar de tudo, foi o último Império multi-continental a cair. E até podemos dizer que foi o primeiro a nascer.


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